Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Weimar: ousadia como origem

A cidade foi a primeira sede da escola Bauhaus. O legado deixado por seus criadores está por toda parte

Mônica Nóbrega, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 03h50

Com um pouco de abstração, Jakob Wolters parece, ele mesmo, uma obra da Bauhaus. Dois palmos mais alto que todos nós (vertical como janelas de Otto Haesler), cabeça aloirada raspada à máquina bem rente (minimalismo), calça jeans e casaco verde reto (sem ornamentos), o aluno de pós-graduação da Universidade Bauhaus em Weimar nos conduziu no tour pela primeira sede da escola.

A Bauhaus abriu oficialmente em 1.º de abril de 1919 com um programa de ensino ousado para sua época. Incorporava o utilitarismo do movimento Neues Bauen. Valorizava as necessidades humanas – as da vida prática – em primeiro plano. Rejeitava os ornamentos, a estética rebuscada da burguesia. Colocava lado a lado em importância a sensibilidade do artista e a habilidade realizadora do artesão. 

Walter Gropius (1883-1969) criou a Bauhaus como evolução da escola de artes que ocupava o prédio art nouveau onde começava o nosso tour. No esplêndido hall, uma escadaria em espiral, vista de baixo para cima, ilustra a ideia da linha contínua característica da Bauhaus. A escultura Eva, de Auguste Rodin, me remeteu à ideia da união entre criação e técnica. Também há bustos de Gropius e do designer belga Henry Van de Velde, um dos pioneiros do estilo art nouveau

Van de Velde (1863-1957) foi professor da Escola de Artes Aplicadas, que precedeu a Bauhaus. Morou em Weimar entre 1902 e 1915, em uma casa de sua própria autoria, arquitetura e decoração. Fica a 2 quilômetros do centro histórico; o jeito mais gostoso de ir até lá é caminhando por dentro do Parque am der Ilm. Os móveis hoje vistos na Casa Hohe Pappeln (“álamos altos”) são réplicas: a família levou os originais na mudança para Suíça. Em uma hora dá para ver a mobília art nouveau, a biblioteca e os jardins. 

Visitamos a casa no segundo dia. No primeiro, o tour pela universidade, idealizado por alunos (12 euros ou R$ 50) nos levou ainda ao escritório de Gropius, que dirigiu a Bauhaus de sua criação até 1928. Há aqui réplicas de móveis originais, e a respeito deles, o guia Jakob lembrou uma fala do próprio Gropius: “Cuidado com reconstruções, elas costumam ser perfeitas como os originais nunca foram”.

Boas falas de outros expoentes da Bauhaus são lembradas, junto com móveis e maquetes, no recém inaugurado Museu Bauhaus (11 euros ou R$ 46). São quatro andares com originais e réplicas. Faça a visita de baixo para cima; no fim, a descida do ponto mais alto do museu até o térreo é feita por uma dramática escada contínua, em linha reta. Causa vertigem: precisei e vi muita gente precisar do apoio do corrimão para completar a descida. 

Frequentadores ilustres e a primeira Constituição

A 1 hora de trem ou 130 quilômetros de carro de Leipzig, Weimar é um highlight do turismo alemão. Durante o século 18, a cidade viveu sob a regência da duquesa Anna Amalia e de seu filho Carl August, que decidiram enchê-la de artistas e intelectuais. Atraíram gente como o poeta Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) e o escritor Friedrich Schiller (1759-1805); antes, Weimar tinha sido lar de Johann Sebastian Bach (1685-1750). 

Todo esse pessoal é lembrado em suas próprias casas-museus, em estátuas e nomes de logradouros pelo centro histórico. Weimar tem 14 sítios designados como patrimônios da Unesco. 

A cidade foi o berço da primeira Constituição do império alemão, promulgada no mesmo 1919 em que se criou a Bauhaus. A assinatura do documento ocorreu no Teatro Nacional de Weimar, um dos destaques do centro histórico, e deu início ao período conhecido como República de Weimar. Como a Bauhaus, durou até 1933; também como a Bauhaus, foi abatida pelo nazismo. 

Antes disso, em 1923, a exposição de múltiplas formas de arte organizada pela Bauhaus escandalizou a sociedade de Weimar, que passou a gostar cada vez menos da presença da escola na cidade. Em 1925, a escola mudou para Dessau, em um prédio projetado por Gropius segundo os cânones da escola. 

O que mais ver em Weimar

Casa de Goethe

A casa onde o poeta Johann Wolfgang von Goethe viveu por mais de 50 anos, transformada em museu, é inegavelmente a principal atração turística de Weimar. Seus cômodos com muita mobília original preservada narram partes da história do período em que a cidade foi comandada pela duquesa Anna Amalia (1739-1807) e seu filho Carl August (1757-1828), regentes que se empenharam em trazer para a cidade intelectuais da época. 

 

Biblioteca Anna Amalia

Foi dirigida por Goethe durante 35 anos e devastada por um incêndio em 2004. O prédio histórico foi restaurado - o hall em estilo rococó faz parte do conjunto de patrimônios da Unesco da Weimar Clássica. Hoje, é uma das mais bela bibliotecas do mundo. 

 

Weimar Clássica

Além das casas de Goethe e de Friedrich Schiller (1759-1805) e da Biblioteca Anna Amalia, outros lugares e edifícios fazem parte do complexo Weimar Clássica, que tem um total de 12 endereços inscritos entre os patrimônios da Unesco em 1998. 

Parque am der Ilm

A magnífica área verde é da leva das melhorias culturais e de estilo de vida do século 18 em Weimar. Fica ao lado do centro histórico e abriga quilômetros de trilhas entre os jardins majoritariamente de estilo inglês, além de casas históricas - inclusive uma casa de campo de Goethe. Ah, sim: está na lista da Unesco também. 

 

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