Dilemas da retomada do turismo em tempos de coronavírus

Dilemas da retomada do turismo em tempos de coronavírus

Mari Campos

17 de junho de 2020 | 12h11

Dentre as muitas angústias trazidas pela pandemia está também, para nós que amamos viajar, a incerteza sobre o futuro das viagens. Não tem sido fácil lidar com a falta de perspectivas mais concretas do setor, já que destinos lidam com o vírus com modo e timing diferentes – e, muito além de saber que destinos estão reabrindo suas fronteiras, a pergunta que nos fazemos com mais frequência é: quando será realmente seguro viajar? Afinal, nem só de experiências virtuais poderá viver o viajante. 

Mas é preciso controlar a ansiedade, como eu tenho dito muito no meu instagram. Embora a gente ainda não possa dar nenhuma resposta concreta a essa pergunta aqui no Brasil, onde o número de casos e vítimas ainda segue em escalada, o cenário do turismo começa enfim a se redesenhar em alguns países, principalmente em destinos europeus. Ainda que novos surtos da doença sejam esperados em quase todos os destinos até a existência de uma vacina, países que já vêem quedas consideráveis nos números de infectados pela doença começaram neste junho a reabrir suas fronteiras para outras nações – e, assim, redesenham devagarinho os novos tempos para os viajantes.  Dá para ler aqui sobre todas as mudanças que hotéis recentemente reabertos no exterior estão operando, por exemplo.

Foto: Mari Campos

Mas enquanto os países europeus estão elaborando normas bastante restritivas, cujo cumprimento é legalmente obrigatório para qualquer hotel ou restaurante reabrir, aqui no Brasil o governo lançou um selo de “turismo responsável” totalmente questionável, já que em princípio qualquer estabelecimento poderia utiliza-lo, e sem fiscalização – o que não ofereceria, na prática, nenhuma segurança para o viajante. Ainda assim, algumas pousadas brasileiras felizmente estão atentas aos protocolos internacionais e estão se preparando para a reabertura planejada de maneira eficiente e segura, como eu conto aqui. Por outro lado, plataformas de aluguel de imóveis de temporada ainda têm futuro bastante incerto aqui e lá fora, justamente por não seguirem protocolos rígidos de higienização como o setor hoteleiro. 

Uma pesquisa recente da Trvl Lab mostra que os brasileiros pretendem dar preferência a destinos mais próximos de casa na retomada das viagens, mas que mais de 60% deles ainda têm medo de viajar em tempos de pandemia. São temores absolutamente compreensíveis, relacionados aos riscos a que estaríamos expostos em aviões, hotéis e no próprio dia-a-dia das viagens. E não vale mesmo a pena sair de casa para passear enquanto não for realmente seguro fazê-lo.

Ainda de acordo com a pesquisa, a maioria dos consumidores entrevistados acredita na retomada das viagens somente no final deste ano e, veja só, a maioria das empresas do turismo entrevistadas acredita em retomada real do mercado somente no ano que vem.

 

LEIA AQUI: Quando será seguro viajar pelo Brasil?

Crédito: Qatar Airways/divulgação

Em termos de viagens aéreas, diversas companhias internacionais já deixaram de vender o assento do meio desde abril para garantir maior distanciamento social entre passageiros. Mas trata-se de uma medida polêmica, já que afeta diretamente a rentabilidade de cada voo. Tanto que as aéreas brasileiras são inteiramente contrárias a essa medida: Azul, Gol e Latam já se manifestaram opostas à ideia de bloqueio dos assentos, continuam vendendo normalmente todo assento disponível nas aeronaves e atualmente andam embarcando voos lotados dentro do país. Pelo menos o uso de máscara a bordo tem sido exigido pela maioria… Nos EUA, aliás,  companhias aéreas como United e American divulgaram recentemente que não embarcarão sob hipótese nenhuma passageiros que se recusarem a usar máscaras. Por enquanto, e por isso mesmo, a maioria das viagens do começo da retomada do turismo deve acabar sendo feita majoritariamente por via terrestre, tanto aqui como em outros países (e vale lembrar que hoje praticamente todas as fronteiras internacionais estão fechadas para nós, brasileiros).

Nos aeroportos, as coisas já estão mudando, tanto aqui como lá fora: há marcações no chão para garantir distanciamento de passageiros nas filas, vidro de proteção nos balcões de informação, check in e despacho de bagagem, e lá fora tem muitos países testando termômetros infravermelhos e até testes rápidos no saguão de embarque. Parte do setor acredita que possa haver uma onda de expansão nos aeroportos, horizontal ou verticalmente, mesmo após uma vacina contra a Covid-19, para evitar que passageiros fiquem aglomerados como prevenção à possibilidade de outras pandemias no futuro – mas já sabemos que isso não será realidade em muitos destinos.

Foto: Mari Campos

Além de tudo isso, nós, como viajantes, também temos que pensar cada vez mais em fazer do turismo uma cadeia verdadeiramente sustentável, de ponta a ponta. Não haverá turismo como conhecemos por muito tempo se não se tornar uma indústria mais sustentável. O modelo de massa em vigor nos últimos quinze anos não se sustentará de maneira nenhuma a longo prazo. Faço parte de um grupo de jornalistas e blogueiros de viagem brasileiros (a GreenPress – Rede de Turismo Consciente) que se uniram para levantar e defender esta bandeira. Tem muita coisa vindo por aí, mas já dá pra conhecer um pouquinho do nosso trabalho neste instagram.

De qualquer maneira, são muitas as escolhas sustentáveis que podemos fazer em nossas viagens daqui pra frente, dos hotéis aos prestadores de serviços, do meio de transporte à movimentação da economia local e da própria maneira como desfrutamos os destinos – e como ensinamos as crianças a explora-los. Dá pra ler um pouquinho mais sobre isso aqui. Cidades europeias vítimas de overtourism, como Veneza e Amsterdã, já começam a colocar em prática nesta primeira fase da reabertura do turismo algumas medidas práticas para tentar evitar turistas em excesso em seus limites – e os famosos “turistas de um dia” devem ser cada vez menos bem-vindos por ali. O próprio uso de algumas praias espanholas e italianas neste verão europeu de 2020, por exemplo, será extremamente limitador: já é obrigatório reservar data, horário e local previamente via internet para garantir seu lugar ao sol. 

Mas em tempos de tantos usos únicos de itens higiênicos descartáveis para garantir a saúde e a segurança dos viajantes, como podemos colaborar de maneira eficiente pela sustentabilidade do turismo? Eis aí um tópico para o qual temos que definitivamente começar a direcionar nossos esforços. Aqui há sete ideias para começarmos a fazer nossas viagens mais sustentáveis a partir de agora. Mas novas ideias são sempre extremamente bem-vindas. 

 

 

Leia mais sobre turismo em tempos de pandemia aqui.

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