Turismo após um ano de pandemia

Turismo após um ano de pandemia

Mari Campos

30 de março de 2021 | 18h59

Se tem uma pergunta que eu ainda ouço todo santo dia é “Mari, quando o turismo vai voltar ao que era?”. Já sabemos que o setor – responsável por um em casa 10 postos de emprego no mundo – encolheu cerca de 80% em 2020. E 2021 infelizmente não começou nada bem. Passado um ano inteirinho da declaração de pandemia da Covid-19, o mercado já fez diferentes projeções a respeito e não existe exatamente um consenso sobre prazos para a recuperação. O turismo, após um ano de pandemia, mudou.

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Entrevistei alguns especialistas do setor no Brasil para uma matéria que foi parte de um suplemento especial excelente do Estadão sobre “Um ano de pandemia“, publicado há 10 dias. O suplemento englobou todas as mudanças e transformações pelas quais diferentes setores da sociedade e da economia passaram nestes doze meses. E acho importante trazer algumas das transformações do turismo também pra cá.

A indústria turística tem tentado assumir as perdas e focar no futuro, com um entendimento geral de que a recuperação só começará quando houver uma vacinação em massa da população, nacional e internacionalmente – o que por aqui, sabemos, ainda pode levar bastante tempo.  Assim, a recuperação do setor seguramente não se dará de forma linear; deve acontecer em ritmo diferente em cada país e região.

Para os brasileiros, o turismo doméstico continua sendo a aposta possível no momento. Embora o padrão de gastos não seja o mesmo de antes, estudo da Travel Consul mostrou agora em março um aumento de 43% em viagens domésticas no país. Pesquisa recente do Airbnb diz que 56% dos entrevistados preferem atualmente um destino doméstico, preferencialmente perto de casa (que é como eu pessoalmente tenho “escapado” nestes tempos). O movimento nas agências de viagem também confirma essa tendência. “Vários passageiros que não olhavam para o Brasil como opção de viagem acabaram olhando, experimentaram, gostaram e estão repetindo”, afirma Jacque Dallal, proprietária da Be Happy Viagens. 

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Soneva Maldivas

Foto: Soneva Fushi

O turismo de lazer, que foi o primeiro a iniciar a retomada de atividades ainda em meados do ano passado, provavelmente será o primeiro a se recuperar –  principalmente no mercado de luxo, que conta com clientes com mais folga financeira para isso. “Imagino que a partir de maio comecemos a retomar mais as viagens domésticas e regionais. Uma retomada a níveis próximos ao que tínhamos pré-pandemia, não vejo antes de meados de 2022. Até lá, será um movimento bem gradual, de pouquinho em pouquinho”, acredita Bruno Vilaça, proprietário da agência Superviagem, membro Virtuoso.

Como o turismo de negócios – que era responsável por boa parte das arrecadações do turismo no Brasil – ainda deve demorar bastante para começar a esboçar qualquer tipo de recuperação, Ricardo Freire, do Viaje na Viagem, sugere também que mudanças estruturais seriam fundamentais para impulsionar de fato a retomada do turismo doméstico. “Novas rotas com voos duas vezes por semana ligando capitais e cidades de porte médio diretamente a destinos turísticos podem abrir novos caminhos para o turismo doméstico de massa”, defende.

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Mudanças de comportamento e preferências

Estudos mostram que o turista brasileiro que já retomou parte de suas viagens têm dado cada vez mais importância à acomodação escolhida. A procura por imóveis de temporada e alguns hotéis específicos para praticar turismo de isolamento no Brasil também cresceu muito neste período. Vale lembrar que diversos novos hotéis abriram as portas em plena pandemia também no Brasil, como o Fuso Concept, em Florianópolis/SC, e o Canto do Irerê, em Atibaia/SP, por exemplo – e estão atingindo índices de ocupação surpreendentemente além do esperado.

Boa parte da hotelaria brasileira tem se adaptado rapidamente às novas necessidades geradas pela pandemia, como espaços focados em distanciamento social, maior privacidade entre hóspedes e maior ventilação de todos os ambientes, por exemplo. Internacionalmente, percentual significativo dos hotéis já inclui até mesmo testes de Covid-19 entre as amenidades fornecidas – e esse movimento começa a chegar no Brasil também.

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A popularização do home office e do ensino à distância também começam a favorecer a retomada das viagens de determinada parcela da população, já que, em muitos casos, podem ser executados a partir de qualquer destino.  A linha divisória entre trabalho e lazer têm ficado cada vez mais tênue para muitos brasileiros que já voltaram a viajar. “Acredito que viagens mais demoradas, com mais tempo no mesmo lugar e no mesmo hotel, e mais viagens em família tenham vindo mesmo para ficar. Graças ao trabalho remoto, muita gente pode agora estar em qualquer lugar inclusive para trabalhar”, diz Bruno Vilaça.

Agências e operadoras têm projetado também novos produtos para contornar a crise do setor. Estima-se que mais de 42% ajustaram recentemente seu modelo de negócio para se adequar à dinâmica da vida na pandemia. Mariana Rosa, CEO da Passion Brazil, é parte dessas estatísticas: criou na empresa novos serviços e produtos para o turista que quer seguir isolado, ampliou o portfólio de casas e villas privadas (que passaram a ter muito mais procura) e desenvolveu novos roteiros de viagem fora dos circuitos turísticos mais tradicionais para atender tal demanda.

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No entanto, não há ainda previsão para a real retomada das viagens internacionais por parte dos brasileiros; mas o setor prevê a rápida incorporação das eventuais novas exigências de viagem por parte dos turistas quando as fronteiras forem finalmente levantadas. Jacque Dallal acredita que o movimento será natural: “Comprovante de vacinação, PCR negativo, passaporte biológico… tudo isso terá provavelmente que ser incorporado normalmente aos nossos documentos de viagem. Assim como já incorporamos a carteirinha internacional de vacinação contra a febre amarela há tanto tempo”, afirma. 

Já a retomada do turismo estrangeiro no Brasil preocupa o setor. “A imagem corrompida, manchada, especialmente por questões sanitárias, é muito difícil de reverter. É preciso entender que todas as medidas de contenção da contaminação e aceleração das vacinas são urgentes”, alerta Mariana Aldrigui, da FeComercioSP.

Enquanto o setor se organiza para os novos tempos e novas necessidades, para nós, viajantes, a exigência pode se resumir a uma só: sermos EXTREMAMENTE responsáveis e cuidadosos, o tempo todo, conosco e com os outros, quando resolvermos retomar nossas viagens. É preciso paciência, disciplina e senso de coletividade para passarmos por tudo isso e podermos retomar, felizes, um dia, nossas viagens do modo como gostaríamos. Como bem disse Ricardo Freire: “Vai chegar o dia em que viajar vai deixar de ser fuga (de um pesadelo, de uma prisão) para voltar a ter o significado que tinha antes para cada um de nós”. Amém!

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