Shaw Nielsen/NYT
Shaw Nielsen/NYT

Dá para planejar viagens?

CONTEÚDO ABERTO PARA NÃO-ASSINANTES: Compre agora, viaje depois: vale a pena investir nessas ofertas?

Nathalia Molina, especial para o Estado

08 de maio de 2020 | 05h00

Entre todos os hábitos, viajar foi o primeiro a ser cortado depois da pandemia do coronavírus. Para garantir recursos para seguir com seus negócios, operadoras, hotéis e cidades turísticas criam promoções e vouchers para o viajante comprar agora e usar depois, em ação parecida à vista entre restaurantes do País. Algumas ofertas são tentadoras. Mas será que valem a pena?

Paulo Márcio Terra Nunes decidiu arriscar. Proprietário de uma franquia de comida japonesa em Minas Gerais, ele usou o mesmo recurso em seu negócio. Assim, decidiu pagar R$ 4 mil no voucher da Vay Agora para ter R$ 5 mil para gastar em passagens aéreas no futuro. “Vi como uma oportunidade porque viajo bastante, no Brasil e no exterior. Quando tudo isso acabar, vou querer viajar”, conta o empresário.

“Acho que, do meio do ano em diante, as coisas vão normalizar. Existe uma força de negócios e comércio que não vai ficar parada”, diz Paulo. Mas pondera: “ Se não fosse uma empresa conhecida, talvez não comprasse.”

Com atendimento via WhatsApp desde 2015, a companhia totalmente online ganhou o nome Vay no ano passado, quando investiu em uma mudança tecnológica. Diante das perdas causadas pela pandemia, lançou a campanha #VayDepois, com três tipos de voucher para bilhetes aéreos: R$ 500 (pelo preço de R$ 450), R$ 1.000 (a R$ 850) e R$ 5 mil (por R$ 4 mil). “Tivemos de lidar com uma redução nas vendas de passagens de 50% em março e 95% em abril”, conta Vitor Coutinho, cofundador e diretor de operações da Vay. Os bilhetes podem ser emitidos, no nome do titular ou de outras pessoas, em até dois anos.

Com tempo para usar

O prazo longo é um aspecto importante a ser considerado pelo viajante para ter uma ideia mais clara de como estará a situação do Brasil e do mundo em relação ao novo coronavírus. “Neste momento, é muito difícil fazer qualquer previsão sobre viagens. Mas um prazo de dois anos é mais razoável”, afirma Eliseu Alves Waldman, professor do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

A baiana Débora Silva Souza quer aproveitar o tempo dado pela promoção da Loumar Turismo, operadora especializada em Foz do Iguaçu. Para incentivar a compra de passeios, ingressos de atrações, transporte e hospedagem, os vouchers com preço até 70% menor podem ser pagos em um período máximo de 12 vezes e usados dentro de dois anos. “Estou fazendo fé de ir para Foz em dezembro. Se não der, tenho a segurança de poder marcar para depois”, diz a técnica em contabilidade.

A compra deve ser realizada até domingo. “Em março, tivemos uma venda normal até o fim da segunda semana. Após isso, a queda foi de 99%”, afirma Marcelo Valente, CEO da empresa. A Loumar começou a divulgar a promoção em 23 de abril e, seis dias depois, já contabilizava 600 contatos interessados. “A maior parte são pessoas interessadas em visitar Foz no próximo semestre ou em 2021”, afirma Valente.

Débora está entre elas: “Estamos num cenário de incerteza, mas creio que vai melhorar. O turismo interno vai voltar, e Foz tem muito passeio que é aberto”. “Iremos nos reinventar. Eu não tenho medo. Vai ser tudo novo, mas ninguém vai poder parar de viver.”

Turismo no Brasil

A Azul Viagens também aposta no prazo longo para conquistar viajantes com pacotes sem data fixa para o embarque. “Sabemos das dificuldades deste momento e queremos que as pessoas fiquem em casa mesmo. Mas por que não garantir um pacote de viagem para o segundo semestre ou até para daqui a um ano? Desta forma, damos segurança, tranquilidade e flexibilidade”, diz Daniel Bicudo, diretor da operadora oficial da Azul.

Com duração de quatro ou sete dias, os pacotes incluem parte aérea, hospedagem e traslado e custam a partir de R$ 1.557,51. “O Bilhete Viagem contempla duas grandes opções uma para quem prefere praia, outra para quem gosta mais do friozinho”, explica Bicudo. O embarque pode ser de 1º de julho a 15 de dezembro ou entre 20 de janeiro e 30 de abril de 2021 – exceto o período de 9 a 23 de fevereiro. A viagem deve ser marcada 40 dias antes do embarque, ou com uma antecedência de 60 dias, no caso de feriados.

Entre os destinos estão Porto de Galinhas, João Pessoa, Curitiba e Gramado. “Entendemos que o mercado doméstico deve ter um retorno mais rápido e esse produto é uma forma de ajudar a fomentar os destinos nacionais”, afirma o diretor da Azul Viagens.

Destinos que vivem do turismo também têm criado promoções próprias. Famosa pelo patrimônio histórico e pela beleza natural da serra fluminense, Petrópolis criou a ação Petrópolis em Dobro. Até 12 de maio, quem compra uma diária nos hotéis participantes ganha outra. Nos restaurantes, o viajante recebe um adicional no valor pago – o estabelecimento emite um voucher válido até 30 de dezembro.

“Neste momento, precisamos nos preparar para a retomada das atividades, seguindo todos os protocolos e cuidados necessários para que o cliente tenha a percepção de segurança”, diz Samir El Ghaoui, presidente do Petrópolis Convention & Visitors Bureau (PCVB). “Precisamos movimentar o fluxo de caixa de forma a manter a empregabilidade e o funcionamento de restaurantes e hotéis.”

Em Socorro, o setor responde por quase metade da economia da cidade. A queda de faturamento é estimada em 88%. Para garantir o funcionamento de micro e pequenos empresários do segmento, a Associação de Turismo da Estância de Socorro (Astur) lançou a campanha Compre Agora, Viaje Depois, com a venda até 15 de maio de vouchers com 40% de desconto, tendo 14 de dezembro deste ano como limite para o uso.

Participam da campanha cerca de 40 negócios, nas áreas de hospedagem, compras e artesanato, gastronomia e atividades de ecoturismo. “Como a tendência pós-epidemia será de um aumento do turismo doméstico, a campanha também mira naqueles que ainda não conhecem a cidade”, diz Ana Luiza Russo, presidente da Astur. São cinco opções de voucher, entre R$ 50 (pagando R$ 30) e R$ 500 (a R$ 300). As compras podem ser divididas em parcelas mínimas de R$ 100. No ar há duas semanas, teve cerca de 40 vouchers vendidos.

“É uma super oportunidade, e o risco não é alto”, acredita Eliz Claro, jornalista e produtora de eventos, que comprou vouchers para hospedagem e restaurante. “Estou programando a viagem para novembro. Se piorar a situação, acredito que eles vão estender o prazo”, diz. “Acho vantajosa a promoção e também a chance de ajudar as cidades que dependem do turismo.”

Segurança de viajantes

Para Waldman, professor da USP, as pessoas terão de viajar com a disposição de manter os requisitos de segurança para a saúde. “Terão de levar álcool em gel e usar máscara. Nas viagens aéreas, as companhias terão de pensar em uma solução para manter algum afastamento entre os viajantes”, diz. A quem pega estrada, o professor do Departamento de Epidemiologia recomenda: “O ideal é ir com janela aberta, para não usar o ar-condicionado do carro”. Segundo ele, será preciso que os lugares tenham protocolos de higiene para restaurantes e hotéis. “E é importante que o pessoal cumpra, tanto funcionários como viajantes.”

É indicado que o viajante leve em conta potenciais riscos e os dias de folga disponíveis no futuro antes de fechar negócio, aponta Guilherme de Almeida Prado, fundador do portal de comparação de serviços financeiros Konkero e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). “Se você tem flexibilidade de datas e folga financeira, aí pode ser bem interessante arriscar em determinadas promoções”, afirma. “Fique atento às regras de remarcações.”

Promoções em hospedagem

Hotéis também apostam no pagamento agora da acomodação futura. Na Associação Roteiros de Charme, cerca de 20 integrantes aderiram à promoção Celebre a Vida, oferecendo descontos de até 35% e benefícios como diárias grátis em reservas prévias. Para pagamento antecipado, por exemplo, o lindo Parador Lumiar, na região de Nova Friburgo, na serra fluminense, dá 20% de desconto na hospedagem em um de seus 13 chalés sobre os pacotes de 7 de setembro. Com café da manhã incluído, originalmente duas diárias custam a partir de R$ 2.408, e três, desde R$ 3.333. Após a redução, os valores são de R$ 1.926,40 e R$ 2.666,40, respectivamente.

Já a Pousada Estrela D’Água, também integrante da Roteiros de Charme, investiu em um voucher de presente para o Dia das Mães. “Achamos que essa seria uma oportunidade de ajudar neste momento, que tem dias de muito desânimo. Continuar sonhando em estar na praia, com quem gosta, pode ajudar muito”, diz Evelyn Gavioli, proprietária da pousada em Trancoso, no sul da Bahia.

Válido para uso dentro de um ano, o gift de Dia das Mães da Estrela D’Água dá direito a um pacote de três dias e a mimos em dobro. A hóspede poderá escolher entre ganhar chocolates da Stephan Behar Sucré ou duas garrafas de vinho Voilà Rosé. Na segunda opção, ela recebe uma unidade em casa, para brindar no domingo 10 de maio, e outra quando se hospedar na pousada em Trancoso. O voucher custa a partir de R$ 4.924,40 (para hospedagem de segunda a sexta).

O que levar em conta antes de comprar

Dias de folga

Muitas empresas estão antecipando férias e poderão fazer o mesmo com feriados. “Então aquela data que você imagina que terá livre poderá não estar”, lembra Almeida Prado, diretor do Konkero, portal de comparação de serviços financeiros. “Além disso, os calendários das escolas estão indefinidos e também podem mudar as datas de férias.”

Saúde no destino

Waldman, professor do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), recomenda que o viajante procure saber como está a situação do novo coronavírus na cidade a ser visitada: “A pessoa tem de ver se aquele município está tranquilo nos 30 dias antes de viajar”.

Regras para remarcação

“Não está claro até quando vai a quarentena. Pode ser que volte o vírus em determinada cidade ou país e aí sua viagem tenha de ser adiada. Ou pode ser que você mesmo não se sinta tão à vontade para viajar quando chegar a data”, observa o diretor da Konkero. Observe as regras para remarcação diretamente com as empresas; leia mais em dúvidas comuns entre viagens e coronavírus.

Solidez da empresa

Para diminuir a possibilidade de perda, o viajante pode buscar companhias já conhecidas e bem avaliadas pelos consumidores, em sites como Procon-SP e Reclame Aqui. “Pagar antecipado em um setor que deve ter empresas fechando as portas pode ser um alto risco”, explica Almeida Prado. “Buscar empresas mais sólidas é importante”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.