O fim do dinheiro e o aumento do IOF

Num longínquo 1987, ciceroneei um amigo holandês pelo Brasil. Ele ficou admirado com o avanço do nosso sistema bancário: sacar dinheiro num caixa automático em Ouro Preto com meu cartão do banco de São Paulo era um tipo de operação que não existia na Holanda

Ricardo Freire, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2016 | 02h38

Quase 30 anos depois, a Holanda está na vanguarda do movimento que quer acabar com a circulação do dinheiro em espécie. Vários lugares em Amsterdã – cafés, restaurantes e lojas voltadas a um público moderninho – simplesmente não aceitam mais pagamento em dinheiro: somente pin. Originalmente, pin significava cartão de débito, mas hoje a categoria já abrange os de crédito. 

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A mensagem é clara: dinheiro em espécie é antiquado, sujo, poluente. Elimine o dinheiro vivo do seu estabelecimento, e o mesmo funcionário que manipula comida poderá receber o pagamento. Dinheiro em papel está entrando para a mesma categoria dos combustíveis fósseis, garrafas PET e sacolinhas de supermercado. O mundo é mais limpo e sustentável quando notas e moedas são abolidas.

No Brasil, ao mesmo tempo em que os meios de pagamento eletrônicos ganhavam terreno no dia a dia, o dinheiro em papel foi se tornando cada vez mais predominante nas viagens ao exterior. Graças ao IOF de 6,38%, aplicado primeiramente aos cartões de crédito, e em seguida aos cartões de débito e cartões pré-pagos, o brasileiro voltou a viajar com bolos de dinheiro na doleira.

O aumento do IOF para compra de moeda estrangeira em espécie, de 0,38% para 1,1%, decretado na semana passada, azedou o humor dos viajantes. Os efeitos psicológicos da medida, porém, são maiores do que os práticos. Se por um lado “o IOF triplicou”, por outro o aumento foi de mero 0,7% – uma variação a que estamos acostumados no dia a dia. A diferença é que esse 0,7% não oscilará: já está incorporado ao valor do dólar, do euro, da libra e de todas as moedas estrangeiras compradas legalmente por aqui.

O maior problema do aumento do IOF é estimular uma tendência que já apontei neste espaço: depois de abandonar os cartões, muitos brasileiros estão abandonando o dólar, achando que podem levar reais para qualquer lugar no exterior. É uma péssima estratégia. O real só tem cotação justa em Buenos Aires, Santiago e no Uruguai. Fora desses lugares, será comprado com 10%, 15%, até 40% de deságio. Não fuja de um IOF de 1,1% para levar um prejuízo de 10%.

E lembre-se que cartões de crédito são indispensáveis na locação de carros, requeridos como garantia no check-in de muitos hotéis – e os únicos meios de pagamento aceitos em cafés moderninhos na Holanda.

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