Felipe Mortara|Estadão
Felipe Mortara|Estadão

Uma noite na Praia do Leão, berçário das tartarugas

Realizada duas vezes por semana, Tartarugada do Projeto Tamar permite ver de perto a desova dos animais na Praia do Leão. As vagas são poucas, mas há emoção de sobra

Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

30 Março 2016 | 17h42

 VILA DOS REMÉDIOS - Era pouco mais de 20 horas quando paramos o buggy e descemos pela curta trilha que leva à Praia do Leão. Seis humanos entravam em território proibido. Sim, depois das 18h30 não é permitida a visita às praias do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. Calma, não apenas estávamos autorizados a estar ali como muito bem acompanhados por um biólogo do Projeto Tamar. Quando chegamos na areia, apenas sob a luz da lua minguante, pudemos ver um enorme e lento vulto saindo do mar. Havia começado a Tartarugada.

Gratuita, a atividade de educação ambiental promovida pelo Projeto Tamar ocorre de uma a duas vezes por semana entre fevereiro e maio e dá a chance de ver de pertinho a desova das gigantes. Talvez seja a experiência, digamos, mais íntima que se pode ter com as tartarugas-verdes. Para me inscrever, bastou ir até o posto da ONG na Praia do Boldró – quanto mais cedo for, maiores as chances de reservar, pois são apenas quatro vagas por noite.

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Não se trata de um programa turístico, como fez questão de frisar João Victor Teixeira, biólogo do Tamar. “É uma atividade de sensibilização ambiental. As pessoas não protegem o que não conhecem”, explicou, diante da enorme fêmea plantada na areia.

Os visitantes têm o privilégio não só de pernoitar na praia, como ajudar na contagem de ovos, medições e até marcação de indivíduos. Nossa missão era acompanhar todo o processo da fêmea: saída do mar, busca pelo canto ideal para depositar os ovos, cavação de buraco, desova, cobertura do ninho e retorno ao mar. Honrando a fama de lentos, os animais levam cerca de 3 horas para completar todo esse ritual. Se tivéssemos sorte, ainda veríamos filhotes de desovas anteriores nascendo na manhã seguinte. Cruzamos os dedos.

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Sem luxos. Considerada uma das mais bonitas da ilha (em uma disputa ferrenha com a do Sancho), a Praia do Leão seria só nossa – e das tartarugas – até o sol raiar. Como teto, apenas a base de apoio do Projeto Tamar, uma casinha de madeira escondida na vegetação no canto direito da praia. Lá dentro, nenhum conforto: dorme-se em colchonetes e sacos de dormir. É possível que alguém escolha a rede, mas pode ter de negociar o sono com alguns mosquitos. Banheiro? Bem, há bastante mato ao redor.

Há mais de 30 anos, quando se instalou na ilha, o Tamar monitora a Praia do Leão, considerada a favorita das tartarugas “gestantes”. Ao fim da temporada de desova, contabiliza-se mais de 100 ninhos ao longo do 1 quilômetro de faixa de areia.

Nas quase 12 horas que ficamos ali, vimos duas grandes tartarugas-verdes desovando. Por “grande” entenda-se casco com até 1,40 metro de envergadura – as que medimos tinham cerca de 1,20 metro – e 400 quilos. Pura sorte: há dias em que não se avista nenhuma. O rastro que formam na areia lembra muito os das rodas de um trator – mesmo indo só pela manhã é fácil perceber onde os ovos foram depositados.

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Vida que segue. Com o dia já claro, saímos da casa de apoio e nos dirigimos aos ninhos, marcados por estacas. Entre a tartaruga desovar e os filhotes nascerem, conta-se um período que varia de 45 a 60 dias. Abrimos o ninho de número 31. Nesse momento, todos ajudamos o biólogo João Victor Teixeira na contabilidade: ovos que eclodiram, número de filhotes nascidos, ovos não eclodidos e natimortos – números que irão para a base de dados do Tamar.

Das 96 tartaruguinhas nascidas vivas, 79 haviam rumado ao mar durante a madrugada. Os outros 17 filhotes levamos manualmente até a beira d’água – não podemos colocá-los no mar, é preciso deixar que lutem pela sobrevivência.

“Conhecer os bastidores do trabalho diário do Tamar para a proteção dos animais é o mais sensacional. Isso compensa os contratempos que tivemos”, avalia o psicólogo carioca Igor Hofacker, de 30 anos. Para sua namorada, a também psicóloga Mariana Ferreira, de 26, a experiência é um privilégio. “Pouca gente poderia estar no nosso lugar vivenciando esse momento. Conviver com a natureza de perto é diferente do que a gente imagina.”

Enquanto conversávamos, fragatas davam rasantes sobre nossas cabeças – para as aves, as tartarugas recém-nascidas são sinônimo de alimento. Nada de interferência humana. A natureza precisa seguir seu rumo.

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