Turismo de bem-estar

Turismo de bem-estar

Mari Campos

15 de junho de 2021 | 14h47

O chamado “turismo de bem-estar” – wellness tourism, internacionalmente – está em alta. E já estava mesmo antes da pandemia. As últimas edições da ILTM, o maior evento de turismo de luxo do mundo, já vinham alertando para o crescimento deste nicho do turismo e estimulando hoteleiros, destinos e prestadores de serviço a se engajarem de fato nesse mercado. Outros eventos de turismo importantes no cenário internacional, como o EOL, promovido anualmente pela associação Traveller Made, também vinham fazendo deste tópico um de seus temas principais nas discussões com a indústria turística.

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Mas a pandemia parece ter dado realmente o boom que faltava ao turismo de bem-estar no Brasil e no mundo. Mais do que nunca, saúde, bem-estar e confiança são requisitos quase obrigatórios para boa parte dos viajantes nesses tempos. Segundo o World Travel & Tourism Council (WTTC), trata-se de um nicho em franca expansão, que deve movimentar sozinho mais de US$900 milhões no mundo até o ano que vem.

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Canto do Papagaio

Canto do Papagaio, em Aiuruoca, MG. Foto: Mari Campos

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O que é turismo de bem-estar?

O turismo de bem-estar ou wellness tourism é a intersecção de duas das mais poderosas indústrias do mundo: a indústria do turismo e a indústria do bem-estar. É definido pela  Global Wellness Institute como viagens associadas à ideia de manutenção ou conquista do bem-estar pessoal, criando oportunidades para melhorar a saúde física e mental de maneira mais holística.

Entretanto, é preciso cuidado para não confundir turismo de bem-estar com turismo médico. Enquanto no turismo de bem-estar a ideia é desfrutar de lugares, situações e experiências que contribuam para um equilíbrio pessoal, antiestresse e bem-estar geral, o turismo médico está diretamente atrelado a doenças e seus tratamentos.

O turismo de bem-estar vai muito além dos negócios de bem-estar, como estúdios, spas ou retiros, e hoje se estende enormemente à alimentação saudável, rotinas de exercícios, práticas mentais, experiências na natureza ou mesmo conexões entre pessoas (quando possível nesses tempos…).

E está também cada vez mais relacionado à ideia de sustentabilidade em geral. História local, aspectos culturais, natureza, práticas de cura antigas/espirituais, argilas especiais, águas minerais, ingredientes locais e tradições culinárias… tudo pode ser usado a favor do turismo de bem-estar nos mais diferentes destinos e propriedades hoteleiras.

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Turismo de bem-estar como importante tendência de comportamento

O contato intenso com a natureza e a vista para o mar são mais do que nunca reconhecidos como fundamentais nas viagens com propósito de autoconhecimento e equilíbrio. Relatório da Wellness Tourism Association (WTA), gerado após estudo do segundo semestre de 2020, já mostrava que o desejo de estar em contato com a natureza e melhorar a saúde mental são os dois maiores impulsionadores do turismo de bem-estar atualmente.

No final de 2020, diversos especialistas do setor turístico já apontavam a tendência de crescimento sem precedentes para o turismo de bem-estar em 2021. “Os viajantes darão cada vez mais importância para um mundo mais ‘humano’ “, já defendia Simon Mayle, diretor de eventos da ILTM. “Priorizam mais destinos com grandes espaços abertos e terão viagens com cada vez mais foco na natureza, no “desconectar para (re)conectar. Vão cuidar ainda mais do bem-estar de uma maneira mais holística, pensando em corpo, mente e espírito, e valorizarão experiências mais imersivas”.

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Nomad Place

Cabana da Nomad Place na Mantiqueira. Foto: Mari Campos

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Turismo de bem-estar e pandemia

Segundo dados de 2018 do Ministério do Turismo brasileiro, no pré-pandemia era o estrangeiro em visita ao Brasil o turista mais interessado no turismo de bem-estar – e também o que permanecia mais tempo e gastava mais nesse tipo de turismo. Com a debandada em massa dos estrangeiros nos últimos quinze meses, face ao caos sanitário instalado no Brasil durante a pandemia, o cenário obviamente mudou. E a própria percepção do turista brasileiro sobre turismo de bem-estar também.

A pandemia da Covid-19 trouxe à tona inúmeras discussões sobre saúde mental (a busca pelo termo vem batendo recordes no Google desde o ano passado) e qualidade de vida. Embora algumas pessoas não tenham feito grandes alterações no seu modo de vida nem sequer em suas viagens nesse período, para muita gente a pausa nas viagens e todas as mudanças cotidianas trazidas pela pandemia geraram um pensar muito mais criterioso sobre o turismo em si.

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E foi nesse contexto que muita gente se deparou com o termo “turismo de bem-estar” pela primeira vez nos últimos 15 meses. Afinal, critérios como higiene, segurança e contato com a natureza passaram a ser considerados essenciais ou muito importantes por muita gente ao considerar suas próximas ou possíveis viagens.

O movimento obviamente é fruto das mudanças de comportamento de muitas pessoas. A busca pela saúde (física, emocional) em tempos de doença é um processo absolutamente natural e esperado. E vem funcionando com um importante “norte” para o desenvolvimento de novos serviços e ofertas voltados para relaxamento e bem-estar geral (incluindo valorização sem precedentes de práticas milenares, como a medicina ayurvédica ou a meditação).

Com a pandemia, o próprio conceito de bem-estar se tornou algo mais amplo, envolvendo inclusive a participação de outras modalidades e nichos turísticos nesse processo.

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Amazônia

Amanhecer na Amazônia. Foto: Mari Campos

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Quem é o turista de bem-estar?

O turismo de bem-estar não é novidade, é claro. Há tantas décadas viajantes se deslocam a destinos mais remotos em busca de fontes termais, spas ayurvédicos, retiros etc. Mas agora o viajante finalmente enxerga nesse tipo de viagem uma extensão de seus próprios valores e estilo de vida.

Nos últimos anos do pré-pandemia, o mercado global de turismo de bem-estar já vinha crescendo mais que o dobro do crescimento do turismo em geral, segundo dados do Global Wellness Institute. E o mercado está finalmente investindo em maior profissionalização desse tipo de serviço, inclusive em nichos mais econômicos do turismo. Diversas pousadas e até mesmo imóveis de temporada têm insistido em divulgar seus atrativos relacionados ao bem-estar em todas as suas comunicações com o público final.

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O perfil principal desse nicho do turismo era então composto majoritariamente por mulheres com nível superior e idade entre 30 e 60 anos. Mas a pandemia ampliou enormemente essas faixas e atingiu hoje os mais diversos perfis de viajantes.

O GWI divide atualmente os viajantes do turismo de bem-estar em dois grupos: turistas de bem-estar primários (que escolhem viagens, hotéis e destinos principalmente sob o viés do bem-estar) e o turistas de bem-estar secundários (que buscam manter seu estilo de vida saudável nas viagens, participando de experiências de bem-estar ao longo da jornada).  E alertam que um mesmo viajante pode muito bem fazer esses dois tipos de viagem em circunstâncias e destinos diferentes. Ou seja, somos eu e você, sem dúvidas, aqui e ali 🙂

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Casa Turquesa

Casa Turquesa. Foto: Mari Campos

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Turismo de bem-estar na prática

Nestes meses todas, muita gente (eu incluída!) está priorizando enormemente nas poucas viagens do período não apenas acomodações nas quais elas realmente confiem, mas que também lhes possibilitem acesso a muitas áreas livres e contato intenso com a natureza durante a estadia – uma vantagem competitiva importantíssima para muitos hotéis, pousadas, imóveis de temporada e destinos neste momento. Se oferecerem atividades específicas voltadas para o bem-estar pessoal, com mão de obra realmente acolhedora, qualificada e capacitada, a vantagem é ainda mais significativa.

Hoje, hoteleiros dos mais variados nichos estão sendo “obrigados” a entender as mudanças na forma de consumo das viagens geradas pela pandemia e ampliar cada vez mais as possibilidades de conexão de suas propriedades com a natureza e o patrimônio cultural e humano.

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A boa hotelaria e os destinos bem administrados – seja aqui ou lá fora – já estão se valendo da criatividade, da inovação e, sobretudo, da autenticidade de seus produtos para criar experiências realmente saudáveis para seus hóspedes e visitantes e inspirar outras possibilidades de bem-estar e realização pessoal nas viagens.

A BLTA (Brazilian Luxury Travel Association), liderada pela genial Simone Scorsato, vem fazendo um incrível trabalho também nesse sentido junto a seus hotéis associados no Brasil (além do excelente trabalho que sempre fizeram no quesito sustentabilidade na hotelaria).  Na linda Casa Turquesa, em Paraty/RJ, por exemplo, acabo de ter uma experiência geral de bem-estar excelente, do contato com a natureza dentro do próprio hotel à alimentação baseada em ingredientes locais, do serviço cálido da comunidade local ao prazer de testemunhar tantas práticas sustentáveis ali, do relaxamento constante ao estímulo do “desconectar para conectar”. Voltei com corpo e cabeça realmente descansados!

E muitos empreendimentos estão indo (felizmente!) muito além do combo massagens e exercícios, propondo também experiências diferentes e, em muitos casos, mais holísticas e completas de bem-estar. No belo Canto do Papagaio, em Aiuruoca/MG, por exemplo, pratiquei feliz diariamente o “banho de floresta” tão apreciado pelos japoneses – que me fez um bem danado! (tem detalhes desta hospedagem no meu Instagram).

Além disso, longos períodos de imersão pessoal e descanso mental em destinos remotos, ou mesmo as muitas variações do chamado turismo de isolamento geradas pelas restrições e necessidades da pandemia, têm sido relatados constantemente por viajantes como geradores de impactos emocionais extremamente positivos nesses tempos.

Mais do que nunca, é hora de cuidarmos muito bem de corpo, cabeça, natureza e também do bem-estar dos outros 🙂

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